8.5.06

MAR DO LEME

Texto publicado no livro A ILHA, em 1999.

MAR DO LEME

Na tarde nublada, dois amigos conversavam sentados num banco do calçadão do Leme, olhando o mar. Era frio. — Jacques, já aconteceu isso contigo também, ser abandonado na hora mais imprevista, na hora que você mais precisava da mulher, sem mais nem menos? — Já, rapaz. Isso é mais comum do que a gente pensa. — Dá pra me contar; preciso acreditar que alguém já passou por isso. Ficar sem nada. — Bem, eu havia deixado a carreira militar, fiquei desempregado, gostava muito dela. De repente, ela chegou pra mim, falou que eu estava atrapalhando. — Atrapalhando? — É. Que ela tinha que estudar... Eu falei: não, mais você não pode me deixar agora... Como tu vê, Carlos, parece que elas escolhem a pior hora... — Você ficou mal, né? — Pensa que é só contigo, meu caro. — Carlos acabara de ser dispensado pela garota. Não tinha mais recursos humanos que o amigo, além da sua dor. Já tinha duas horas que estavam olhando o mar, conversando o mesmo assunto e tentando entender porque ele fora dispensado. Relembrava o quanto ficou mal ao vê-la partir. Tinha ímpetos absurdos de fazer voltar o tempo e tentar convencê-la do contrário. Começara a chover fino. — Jacques, vou te dizer uma coisa. Nem Deus eu perdôo. Não há nada que vai fazer isso passar. Não vou esquecer nunca. Só ela, mais ninguém pode consertar, você entende? — É. Eu sei. — Vamos tomar um café? — Vamos. Depois de tomar o Café, Carlos dirigiu-se ao ônibus e ficou olhando o amigo partir. Sabia que ele entendera. Era bom ter um amigo.
Era o que lhe restava. 7/1999.

3 comentários:

Marcelino Rodriguez disse...

Testando

Déa disse...

É somente o que temos em verdade: amigos. Mais uma vez adorei seu texto.Parabéns...bjs

Andre Luis disse...

quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro...
Boa reflexão sobre a nossa efêmera existência, nem sempre há finais felizes ou formatados comercialmente...
Abraços.